O Reino de Deus — Maior do que Qualquer Igreja

A mensagem central de Jesus — aquela que Ele repetiu mais do que qualquer outra, que enviou Seus discípulos a proclamar, e que disse ser o conteúdo do evangelho — não era "a igreja". Era "o reino de Deus". No entanto, muitos crentes passam a vida cristã inteira pensando principalmente em sua igreja, sua denominação, seu movimento — e raramente pensam no reino.

Não é um desvio pequeno. O reino é maior do que qualquer igreja local, qualquer denominação, qualquer corrente, qualquer movimento. O reino sobrevive a toda instituição e reúne pessoas de toda nação, tribo e língua que se curvam diante do Rei Jesus. Perder de vista o reino é perder a própria estrutura que Jesus nos deu para entender o que Deus está fazendo.

Este artigo percorre o que é o reino, o que significa a cidadania nele, como ele funciona, como avança e o que significa empregar nossas vidas na construção do reino — e não de qualquer igreja específica.

A Mensagem Central de Jesus

Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o evangelho de Deus e dizendo: "O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho."

— Marcos 1:14–15 (ARA)

A primeira mensagem registrada do ministério público de Jesus. Não "junte-se ao meu movimento". Não "venha à minha sinagoga". O reino de Deus está próximo.

Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando todas as enfermidades e moléstias do povo.

— Mateus 4:23 (ARA)

Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas delas, pregando o evangelho do reino e curando toda enfermidade e todo mal.

— Mateus 9:35 (ARA)

O resumo do ministério de Jesus, repetido de forma quase idêntica em dois lugares. O reino era Sua mensagem central. Ele enviou os doze a pregá-lo (Mateus 10:7, ARA). Enviou os setenta a proclamá-lo (Lucas 10:9, ARA). Após a ressurreição, passou quarenta dias ensinando a seu respeito:

Aos quais também se apresentou vivo, após a sua paixão, com muitas provas indubitáveis, sendo visto por eles durante quarenta dias e falando-lhes a respeito do reino de Deus.

— Atos 1:3 (ARA)

Se o reino era o tema central de Jesus — antes da cruz, no evangelho que pregava, após a ressurreição — deveria ser central também para a nossa compreensão do propósito da igreja. A igreja não é o reino. A igreja serve o reino.

O que é o Reino

A palavra grega para reino é basileia — realeza, poder real, governo, domínio. O reino de Deus é, em sua essência mais básica, o âmbito onde Deus reina como Rei. Não é primeiramente um lugar, mas um reinado. Onde quer que Seu governo seja reconhecido e obedecido, o reino está presente.

Se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós.

— Mateus 12:28 (ARA)

Jesus indica que onde quer que Sua autoridade substitua a do inimigo, o reino chegou. O reino avança pelo poder do Espírito contra o domínio das trevas. Não é um conceito espiritual vago. É o reinado ativo do Rei Jesus irrompendo num mundo caído.

Nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali! porque o reino de Deus está entre vós.

— Lucas 17:21 (ARA)

A expressão traduzida entre vós na ARA também pode ser vertida como dentro de vós — muitas traduções carregam esse duplo matiz. De qualquer forma, o ponto é o mesmo: o reino não está localizado num edifício, numa instituição ou apenas numa era futura. Ele está aqui, irrompendo, presente onde quer que o Rei seja honrado e obedecido.

Cidadãos do Reino — Nascidos de Novo

Jesus respondeu e disse-lhe: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.

— João 3:3 (ARA)

Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.

— João 3:5 (ARA)

A cidadania nesse reino não é pelo nascimento físico, nem pela herança religiosa, nem pelas boas obras, nem pela inscrição numa igreja. É pelo novo nascimento — nascer do Espírito. Este é um dos ensinamentos mais decisivos de Jesus, e transformou Nicodemos de líder religioso em seguidor de Cristo.

Foi ele quem nos livrou do poder das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor.

— Colossenses 1:13 (ARA)

Porque a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.

— Filipenses 3:20 (ARA)

O crente foi transferido — liberto do poder das trevas, transportado para o reino do Filho. Nossa pátria está nos céus. Temos um passaporte diferente do mundo ao nosso redor. Somos súditos do Rei Jesus em primeiro lugar, e cidadãos de qualquer nação terrena em segundo.

O Reino é Nosso — Filhos, Filhas, Herdeiros

A cidadania é o ponto de entrada. Mas o Novo Testamento diz algo ainda mais surpreendente sobre a relação do crente com o reino. O reino não é apenas onde vivemos como cidadãos — ele nos foi dado como herdeiros. Ele é nosso.

Não temas, ó pequeno rebanho, porque o Pai se agradou em vos dar o reino.

— Lucas 12:32 (ARA)

É uma declaração impactante, fácil de ler sem absorver o que de fato diz. O agrado do Pai — Seu deleite, Sua alegria, Sua vontade graciosa — é dar o reino ao Seu pequeno rebanho. Não está retido. Não é conquistado. É dado.

Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.

— Mateus 25:34 (ARA)

O reino está preparado, reservado, guardado para o povo do Rei desde a fundação do mundo. Não é pensamento de última hora. Não é provisão improvisada. O Rei nos tinha em mente desde o princípio, e o reino que está estabelecendo foi destinado aos que Lhe pertencem.

Ouvi, meus amados irmãos: não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos em fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?

— Tiago 2:5 (ARA)

Herdeiros do reino. Não é linguagem de simples receptores. É linguagem de herança. O que o herdeiro recebe não é um presente dado à distância — é o que lhe pertence em virtude de fazer parte da família.

Filhos e Filhas do Rei

O crente é herdeiro porque sua identidade é a de filho ou filha de Deus.

O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se filhos, também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo.

— Romanos 8:16–17 (ARA)

E porque sois filhos, Deus enviou ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai! De modo que já não és escravo, mas filho; e, se filho, és também herdeiro por Deus.

— Gálatas 4:6–7 (ARA)

A lógica é precisa. Somos filhos de Deus. Portanto somos herdeiros. Portanto somos coerdeiros com Cristo — partilhando de Sua herança, incluindo Seu reino. O Pai é o Rei. O Filho é o Rei. Estamos na família. Partilhamos o que é deles.

Daniel viu isso quase seis séculos antes de Cristo.

Mas os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para sempre, de eternidade em eternidade.

— Daniel 7:18 (ARA)

Mas o reino, o poder e a grandeza dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo.

— Daniel 7:27 (ARA)

Os santos — os consagrados de Deus — recebem o reino, possuem o reino, têm o reino e o domínio dados a eles. Esta é a nossa herança. Isto é o que o Pai deu. Preparado desde a eternidade. Comprado pelo sangue. Confirmado pelo Espírito. Agora nosso.

E daí a Responsabilidade

Se o reino nos foi dado, temos responsabilidade por ele. Isso é o que a herança sempre significa. O herdeiro não apenas desfruta a herança — o herdeiro assume responsabilidade por ela, administra-a, desenvolve-a, presta contas do que faz com ela.

O seu senhor lhe disse: Muito bem, servo bom e fiel! Sobre o pouco foste fiel; sobre o muito te porei; entra no gozo do teu senhor.

— Mateus 25:21 (ARA)

A parábola dos talentos mostra o princípio. O senhor entrega talentos a seus servos. Eles são responsáveis por investir, multiplicar e devolver com acréscimo. A fidelidade com o que nos foi dado resulta em receber mais. Deixar de assumir a responsabilidade — enterrar o que foi dado por medo — resulta em perder o que se tinha e em ser julgado.

O reino é nosso. Somos herdeiros. Portanto somos responsáveis. Não somos espectadores do que Deus está fazendo em outro lugar. Não somos expectadores esperando que outro avance o reino. Somos filhos e filhas do Rei, coerdeiros com Cristo, a quem o reino foi dado, responsáveis por investir o que recebemos.

Esta é uma das motivações bíblicas mais profundas para o avanço do reino. Não apenas dever. Não apenas gratidão. Identidade. Somos quem o Rei diz que somos. O reino nos pertence nEle. Por isso caminhamos nele, o edificamos, o avançamos, o defendemos, entregamos nossas vidas por ele — porque é NOSSO, dado pelo nosso Pai, Seu agrado, nossa herança, nossa responsabilidade.

Reis e Sacerdotes

E nos fez reis e sacerdotes para o seu Deus e Pai; a ele seja a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.

— Apocalipse 1:6 (ARA)

E fizeste deles, para o nosso Deus, um reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra.

— Apocalipse 5:10 (ARA)

Cristo nos fez reis — não apenas cidadãos, não apenas servos — reis. Reinando com Ele em Seu reino. Caminhando em autoridade delegada (veja A Autoridade do Crente). Carregando responsabilidade como aqueles a quem foi dado domínio sob o Rei dos reis.

Isso não é arrogância. O crente que sabe disso caminha em profunda humildade — porque a realeza é um dom, não uma conquista. Mas também não é falsa modéstia. O agrado do Pai foi nos dar o reino. Recusar o dom é desonrar o Doador. Esquivar-se da responsabilidade é enterrar o talento que nos foi dado.

O Reino e a Igreja — Relacionados, mas não Idênticos

Esta é uma das distinções mais importantes que os crentes precisam compreender.

O reino é o reinado de Cristo. A Igreja é a comunidade daqueles que foram trazidos para debaixo desse reinado. A Igreja serve o reino. A Igreja existe para o reino. Mas o reino é maior do que a Igreja.

Uma igreja local é uma expressão local, um posto avançado, um corpo reunido de cidadãos do reino num determinado lugar. Uma denominação é uma rede de tais expressões. Um movimento é uma corrente dentro do corpo mais amplo. Nenhum deles é o reino. Eles servem o reino. São servos, não senhores.

Isso importa porque grande parte da atividade religiosa tem essencialmente a ver com construir igrejas locais, denominações e movimentos, em vez do reino. A lealdade se prende à visão de um pastor específico, às distintivas de uma denominação específica, à marca de um movimento específico. O reino recua para segundo plano; a instituição vira tudo.

O crente é chamado a uma lealdade mais alta. Pertencemos primeiro ao Rei Jesus e ao reino que Ele está edificando. Nossa igreja local serve esse reino. Nossa denominação, se tivermos uma, serve esse reino. No dia em que cessarem de servir o reino, nossa lealdade deve permanecer com o reino, não com elas.

Já e Ainda Não

O reino carrega uma tensão embutida no ensino do Novo Testamento que precisa ser sustentada com cuidado.

O reino chegou. Jesus o disse claramente: é chegado o reino de Deus sobre vós (Mateus 12:28, ARA); o reino de Deus está próximo (Marcos 1:15, ARA); o reino de Deus está entre vós (Lucas 17:21, ARA). Por meio da cruz, da ressurreição, da ascensão e do Pentecostes, o reino foi inaugurado. Está operando agora.

O reino também está por vir. Jesus nos ensinou a orar Venha o teu reino (Mateus 6:10, ARA). Paulo fala de herdar o reino no futuro (1 Coríntios 6:9, Gálatas 5:21, ARA). Apocalipse descreve o futuro quando o reino do mundo se tornou o reino de nosso Senhor e do seu Cristo (Apocalipse 11:15, ARA).

Vivemos nessa tensão. Poder real do reino, realidades reais do reino, cidadania real do reino — agora. Ainda não a consumação plena. A cura é herança normal do reino, mas nem todos são curados ainda. Os demônios fogem ao comando do crente, mas o mundo permanece sob a influência do maligno em aspectos significativos. A Igreja cresce, mas a colheita ainda não está completa.

Essa tensão é onde os crentes maduros aprendem a viver. Não negamos a realidade presente do reino (rendendo-se à ideia de que "tudo será resolvido só no céu"). Nem presumimos a consumação plena agora (rendendo-se à ideia de que "tudo deve ser perfeito agora"). Pressionamos para as realidades do reino agora enquanto aguardamos o retorno do Rei para trazer a plenitude.

Valores do Reino versus Valores do Mundo

O ensinamento mais extenso de Jesus — o Sermão do Monte (Mateus 5–7) — é essencialmente a constituição do reino. Descreve como os cidadãos do reino devem viver. E quase tudo nele vai contra os valores do mundo ao nosso redor.

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.

— Mateus 5:3–5 (ARA)

O mundo honra os ricos, os poderosos, os dominantes. O reino honra os pobres de espírito, os que choram, os mansos. O reino é de cabeça para baixo segundo a lógica do mundo.

Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.

— Mateus 5:44 (ARA)

O mundo diz para odiar os inimigos. O reino diz para amá-los. O reino convoca para um modo de viver diferente porque é governado por um Rei diferente.

Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.

— Mateus 6:33 (ARA)

O mundo prioriza a provisão, a segurança, o conforto. O cidadão do reino prioriza o reino — e confia no Pai para prover todo o resto. Este é um dos testes mais claros para saber se alguém está funcionando como cidadão do reino ou como uma versão batizada da cultura ao redor.

O Poder do Reino

Se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós.

— Mateus 12:28 (ARA)

O reino não é apenas ensino, não é apenas valores, não é apenas esperança futura. É poder. O mesmo Espírito pelo qual Jesus operou capacita o Seu povo. O avanço do reino no Novo Testamento é consistentemente acompanhado de demonstrações de poder — curas, libertações, milagres, palavras proféticas, provisão sobrenatural.

Porque o reino de Deus não consiste em palavras, mas em poder.

— 1 Coríntios 4:20 (ARA)

Paulo o diz diretamente. O reino está no poder. Somente palavras, somente teologia, somente ética não constituem o reino. O reino vem com o poder do Espírito fazendo o que apenas Deus pode fazer.

Esta é uma das grandes contribuições do movimento pentecostal ao corpo mais amplo — a recuperação do poder do reino como cristianismo normal. O reino expresso na cura dos enfermos, na expulsão de demônios, na profecia, no caminhar em autoridade sobrenatural. Não para a elite espiritual. Para todo crente que foi trazido para o reino pelo novo nascimento.

O Avanço do Reino

Pela Proclamação

E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo em testemunho a todas as nações. Então virá o fim.

— Mateus 24:14 (ARA)

O primeiro meio de avanço do reino é a proclamação. A boa notícia do Rei e de Seu reinado é anunciada aos que ainda não ouviram. Arrependimento e fé são convocados. Cidadãos são acrescentados pela pregação da palavra e pela resposta de quem ouve.

Por Demonstrações de Poder

A proclamação é acompanhada de demonstração. Os paralíticos andam. Os cegos veem. Os demônios saem. Os mortos ressuscitam. Os cativos são libertados. Estes não são acréscimos opcionais à pregação do evangelho. São o reino irrompendo. ==QUOTE==E eles saíram e pregaram em todo lugar, cooperando o Senhor com eles e confirmando a palavra pelos sinais que a acompanhavam.|Marcos 16:20 (ARA)

Por Vidas Transformadas

Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo… Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.

— Mateus 5:13–16 (ARA)

A vida dos cidadãos do reino é ela mesma uma testemunha. Onde os crentes amam com sacrifício, trabalham com integridade, criam filhos com fidelidade, sustentam casamentos, dão com generosidade, falam com verdade — o mundo vê algo que não consegue produzir por conta própria. Este é o avanço do reino em outro modo.

Pelo Corpo Reunido

A igreja local ou comunhão, quando funciona como Deus planejou, torna-se uma comunidade onde o reino é visível. O ministério de cada membro, os dons em operação, o amor verdadeiro, o ensino bíblico, o discipulado fiel — tudo isso junto faz de uma comunhão um posto avançado do reino no território do inimigo.

Edificar o Reino, não uma Igreja

Este é talvez o desdobramento prático mais importante de todo este artigo.

O chamado do crente não é edificar sua igreja local específica. Não é fazer crescer sua denominação. Não é promover a marca do seu movimento. O chamado é edificar o reino de Deus — e servir fielmente em qualquer expressão local onde o Senhor nos colocou, pelo tempo em que Ele nos guiar ali, com nossa lealdade última dirigida ao Rei e não à instituição.

Se o reino é nosso por herança — dado pelo agrado do Pai, possuído por nós como Seus filhos e filhas, em conjunto com Cristo — então edificá-lo não é serviço opcional. É o herdeiro assumindo a herança. É o rei caminhando no domínio que lhe foi dado. É o negócio da família. Construir outra coisa com nossas vidas — mesmo algo religioso, mesmo algo que leva o nome de Cristo — enquanto negligenciamos o reino que nos foi dado é enterrar o talento.

Por que isso Importa

Quando a lealdade se prende principalmente a uma igreja local, denominação ou movimento, algumas distorções surgem:

Competimos com outros crentes e outras comunhões em vez de cooperar com eles.

Protegemos nossa instituição às custas de dizer a verdade.

Celebramos nosso crescimento como se fosse crescimento do reino, quando pode ser apenas transferência de crescimento de outra comunhão fiel.

Resistimos a enviar nossos melhores porque nos são úteis onde estão.

Construímos impérios em vez de formar discípulos.

Medimos o sucesso por presença, orçamento e edificação em vez de medir por vidas transformadas e reino avançando.

Quando a lealdade se prende principalmente ao reino, por contraste, alguns padrões saudáveis emergem:

Celebramos quando crentes fiéis em outras comunhões, denominações ou correntes colhem frutos. O fruto deles é fruto do reino.

Enviamos nossos melhores com alegria quando o reino os chama para outro lugar.

Dizemos a verdade mesmo quando custa à nossa instituição.

Medimo-nos pela fidelidade, não pelo tamanho.

Reconhecemos os limites de nossa expressão particular e permanecemos humildes quanto ao que outras partes do corpo enxergam e nós não.

Cooperação entre Correntes

O reino é maior do que a corrente pentecostal, a reformada, o movimento de igrejas domésticas, a igreja institucional ou qualquer outra tradição específica. Crentes fiéis existem em todas elas. O Senhor está fazendo coisas em todas elas. O crente com uma mentalidade de reino recebe de crentes fiéis em outras correntes, aprende com eles, ora por eles, celebra o que Deus está fazendo por meio deles — sem abandonar suas próprias convicções em questões controvertidas.

Isso exige distinguir o essencial das questões secundárias (veja Doutrina Sã). No essencial, mantemos a linha. Nas questões secundárias, estendemos a outros crentes fiéis a mesma graça que esperamos que eles nos estendam. O reino é maior que nossas distintivas particulares.

O Reino Sobrevive a Todo Movimento

Todo movimento cristão, toda denominação, todo avivamento, todo grande mestre acabará passando à história. Alguns serão lembrados. A maioria se apagará. O reino continua. O reino que jamais será destruído (Daniel 2:44, ARA).

O crente que investiu tudo em seu movimento particular pode descobrir no fim que o que construiu não durou. O crente que investiu no reino — em discípulos formados, em vidas transformadas, no evangelho avançado, no Rei honrado — descobre que o que construiu dura para sempre, porque o reino dura para sempre.

Mentalidade de Reino versus Política Eclesiástica

Onde falta a mentalidade de reino, a política eclesiástica preenche o vácuo. Divisões mesquinhas por questões secundárias. Acumulação de recursos. Proteção de impérios. Autopromoção. Comparação e competição com outras comunhões. O crente que carrega uma mentalidade de reino age de forma diferente:

Generoso com recursos, sabendo que pertencem ao Rei, não à instituição.

Feliz quando outras comunhões fiéis florescem, porque o fruto delas é fruto do reino.

Disposto a estar errado em questões secundárias e a aprender com crentes que enxergam as coisas de modo diferente.

Indisposto a comprometer o essencial em prol da unidade, porque o reino é edificado sobre a verdade, não sobre o consenso.

Livre da ansiedade pela sobrevivência institucional, porque o reino não depende de nenhuma instituição específica.

Isso libera o crente para o trabalho real — proclamar o Rei, formar discípulos, servir o corpo, avançar o reino para territórios ainda não alcançados.

Orando "Venha o Teu Reino"

Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.

— Mateus 6:9–10 (ARA)

A Oração do Senhor coloca o avanço do reino no centro da vida de oração do crente. Oramos para que Seu reino venha — às nossas vidas, às nossas famílias, às nossas vizinhanças, às nossas nações, a toda a terra. Oramos para que Sua vontade seja feita aqui como é feita no céu.

Não é uma oração passiva. É o crente se alinhando com o propósito do Pai e pedindo que o reino invada cada esfera. Inclui pedir cura (realidade do reino irrompendo num corpo), libertação (realidade do reino irrompendo numa alma), justiça (realidade do reino irrompendo numa sociedade), avivamento (realidade do reino irrompendo numa região).

Uma igreja doméstica ou pequena comunhão que aprende a orar Venha o teu reino sobre suas vidas, seus lares, suas cidades — e a sustentar essa oração com ação — torna-se um posto avançado do reino.

A Consumação Futura

Mas, no tempo desses reis, o Deus do céu suscitará um reino que jamais será destruído; esse reino não será deixado a outro povo; quebrará e consumirá todos esses outros reinos, e permanecerá para sempre.

— Daniel 2:44 (ARA)

O sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes que diziam: O reino do mundo tornou-se o reino de nosso Senhor e do seu Cristo; e ele reinará pelos séculos dos séculos.

— Apocalipse 11:15 (ARA)

Em seguida virá o fim, quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de destruir todo principado, bem como todo poder e força. Porque ele deve reinar até que todos os seus inimigos sejam postos debaixo de seus pés.

— 1 Coríntios 15:24–25 (ARA)

O reino tem uma consumação futura. Cristo voltará. Ele estabelecerá Seu reinado em plenitude inconfundível. Todo joelho se dobrará. Toda língua confessará. Os reinos do mundo se tornarão o reino do nosso Senhor. Este é o alvo para o qual toda a história se move.

O crente que viveu para o reino nesta era se encontra em casa no reino da era vindoura. O crente que viveu para instituições, carreiras, confortos ou movimentos pode se encontrar desorientado quando o reino vier em plenitude e mostrar o que realmente importava o tempo todo.

Perguntas Frequentes

O reino é apenas espiritual ou também social e político?

O reino é o reinado do Rei Jesus. Onde quer que Seu reinado seja honrado e obedecido, o reino está presente — e isso inclui indivíduos, famílias, comunhões e o tecido social onde os crentes vivem e trabalham. O reino não é apenas piedade interior. Crentes moldados pelo reino agem em seus locais de trabalho, comunidades e sociedades de maneiras que refletem o reino. Ao mesmo tempo, a consumação social e política plena do reino aguarda o retorno de Cristo — os crentes não a trazem apenas pelo ativismo político.

E quanto a Israel e o reino?

Esta é uma questão sobre a qual crentes fiéis chegam a conclusões diferentes. Alguns entendem que Israel tem um papel futuro distinto no plano do reino de Deus; outros veem a Igreja como a continuação do povo da aliança de Deus; outros sustentam posições intermediárias. Esta é uma das questões secundárias sobre as quais crentes maduros discordam em boa consciência. Os elementos essenciais da cidadania no reino — novo nascimento, fé em Cristo, lealdade ao Rei Jesus — permanecem os mesmos, independente de onde se situe nessa questão.

Devemos esperar um reino milenial literal?

Outra questão secundária sobre a qual crentes cheios do Espírito chegam a conclusões diferentes (pré-milenismo, pós-milenismo, amilenismo). Os essenciais são claros — Cristo voltará, Ele reinará, o reino será consumado. Os detalhes específicos e o cronograma têm sido debatidos ao longo da história da igreja. Sustente sua convicção em boa consciência enquanto estende graça aos que chegam a conclusões diferentes.

Como saber se estou edificando o reino ou apenas minha igreja?

Algumas perguntas de diagnóstico: Fico feliz quando outras comunhões fiéis florescem, ou apenas quando a minha floresce? Envio com alegria meus melhores quando o reino os chama para outro lugar? Aprendo com crentes de outras correntes, ou apenas da minha? Meço o sucesso pela fidelidade ou pelo tamanho? Estou disposto a perder a instituição em vez de comprometer a verdade? Respostas honestas revelam onde a lealdade realmente está.

E as denominações? Estão erradas?

As denominações existem porque crentes se organizaram em torno de convicções compartilhadas. Isso não é errado em si. O erro vem quando a lealdade à denominação eclipse a lealdade ao reino, quando as distintivas da denominação se tornam testes de ortodoxia que a Escritura não sustenta, quando crentes em outras denominações são tratados como menos do que família em Cristo. Uma denominação que humildemente serve o reino é uma estrutura útil. Uma denominação que pensa ser o reino está em erro.

A teologia do domínio é bíblica?

Algumas formas de teologia do domínio — aquelas que ensinam que a Igreja progressivamente tomará conta das nações e instituições terrenas antes do retorno de Cristo — vão além do que a Escritura ensina. Outras formas — aquelas que ensinam que os crentes exercem autoridade de reino nas esferas que Deus lhes deu, enquanto aguardam o retorno de Cristo para consumar o reino — estão mais fundamentadas biblicamente. A distinção cuidadosa está entre exercer autoridade de reino onde Deus a concedeu e presumir o triunfo do reino que a Escritura não promete neste lado do retorno de Cristo.

Considerações Finais

A mensagem central de Jesus era o reino. Nossa mensagem deve ser a mesma. A igreja local — incluindo a igreja doméstica e a pequena comunhão — existe para servir o reino, não o contrário. A lealdade do crente é ao Rei acima de qualquer instituição. O reino sobrevive a todo movimento e reúne todo crente fiel de toda era e lugar num único reinado eterno de Cristo.

E o reino é nosso. Dado pelo agrado do Pai. Preparado desde a fundação do mundo. Possuído por Seus filhos e filhas como herança deles. Não somos visitantes. Não somos servos do lado de fora. Somos herdeiros, em conjunto com Cristo, reis e sacerdotes sob o Rei dos reis — a quem foi dado domínio no reino que Ele partilha com os Seus. Portanto temos responsabilidade. Assumir a herança. Investir os talentos. Caminhar no que o Pai deu. Responder no dia em que estivermos diante Dele com vidas que levaram o dom a sério.

Quando edificamos tendo o reino em mente, construímos o que dura. Quando edificamos para nossa instituição, nosso movimento, nossa marca, construímos o que passa. O crente que descobriu o reino descobriu a estrutura que o próprio Jesus deu para tudo o mais — a Igreja, a missão, o ministério, a vida e a eternidade. E o crente que descobriu que o reino é nosso descobriu a dignidade, o chamado e a responsabilidade de ser filho ou filha do Rei.

Que recuperemos o reino como categoria central do nosso pensar e viver. Que sejamos aqueles que oram Venha o teu reino e querem dizer isso. Que sirvamos nossa comunhão local fielmente sabendo que ela não é o reino — apenas uma das muitas expressões locais dos que servem o mesmo Rei. E que o reino avance por meio de nós — herdeiros assumindo nossa herança — até que Ele volte para consumá-lo para sempre.

E o seu reino não terá fim.

— Lucas 1:33 (ARA)

Pontos-chave

  • A mensagem central de Jesus era o reino de Deus, não a igreja — o evangelho do reino foi o que Ele pregou, enviou Seus discípulos a pregar e ensinou por quarenta dias após a ressurreição (Marcos 1:14–15, Mateus 4:23, Atos 1:3, ARA)
  • O reino é o âmbito onde Cristo reina como Rei — onde quer que Sua autoridade substitua a do inimigo, o reino chegou (Mateus 12:28, ARA)
  • A cidadania é pelo novo nascimento — nascer da água e do Espírito (João 3:3–5, ARA) — transferido do poder das trevas para o reino do Filho (Colossenses 1:13, ARA)
  • O reino é NOSSO — o Pai se agradou em vos dar o reino (Lucas 12:32, ARA); somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (Romanos 8:17, ARA); os santos possuem o reino para sempre (Daniel 7:18, ARA)
  • Somos filhos e filhas do Rei — reis e sacerdotes reinando com Ele (Apocalipse 1:6, 5:10, ARA); não visitantes, não estranhos, mas família
  • Daí a responsabilidade — o herdeiro assume a herança, investe os talentos, administra o que foi dado; edificar o reino é o negócio da família, não serviço opcional
  • A Igreja serve o reino; ela não é o reino — o reino é maior do que qualquer igreja local, denominação ou movimento
  • O reino é "já e ainda não" — realmente presente agora, aguardando a consumação plena no retorno de Cristo
  • Os valores do reino contrastam com os valores do mundo — o Sermão do Monte é a constituição do reino
  • O reino está no poder, não apenas em palavras (1 Coríntios 4:20, ARA) — cura, libertação, milagres, profecia são realidades do reino
  • Edifique o reino, não sua igreja específica — sirva fielmente onde Deus o colocou, mantendo a lealdade ao Rei acima de qualquer instituição
  • Coopere com crentes fiéis de outras correntes; celebre o fruto de outras comunhões como fruto do reino; distinga o essencial das questões secundárias
  • O reino sobrevive a todo movimento — o que construímos para o reino dura para sempre; o que construímos para instituições passa (Daniel 2:44, ARA)